O diálogo como ferramenta da Democracia – Será que acabou?

Quando ainda adolescente e conhecendo a sociedade em que estava inserido, frequentei uma determinada seita religiosa por um período de tempo, e, por ter crescido em um ambiente Cristão não demorou muito para realizar as comparações do que era falado, dirigido, ensinado e obrigado as pessoas daquela seita e o que era ensinado pela Bíblia Sagrada Cristã.

Ao começar a indagar as pessoas que ali frequentavam e que tinham contato comigo já meio que imediatamente fui levado ao ancião daquela seita para com ele ter uma conversa sobre o pretexto de que seriam sanadas todas as minhas dúvidas. Mais uma conversa impositiva do que educacional e com isso passei a observar que aqueles que comigo conviviam passaram a não mais aceitar conversar quando perguntava algo mais profundo ou a questionar algum ensinamento, sendo levado a cumprir cegamente os ensinamentos ou então ser excluído daquele convívio.

Evidente que logo me desliguei daquele local, mesmo porque se não o fizesse seria facilmente posto fora ou ignorado como aquele que não entende ou não possui condições de aceitar o que era falado e vivenciado por aquelas pessoas.

Sai um pouco chateado e me recordo que fiquei tempos pensando naquelas pessoas, que apesar de tudo, eram pessoas que no meu modo de pensar, estudiosas, tinham profissões que exigiam um certo estudo e raciocínio, mas ao mesmo tempo eram submissas totalmente ao que era imposto naquele local, regrando não só dentro dos cultos, mas também a forma de viveram no mundo exterior.

Fiquei amedrontado com a ideia de ter pessoas tidas como intelectuais naquele local, estudantes universitários, profissionais renomados que ali dentro eram fadados ao silêncio e a aceitação obrigatória do que era imposto, gostando ou não, entendendo ou não, sendo moralmente correto ou não frente a sociedade que viviam, como robôs pré-programados obedeciam as regras ali impostas.

Claro, bastaria sair daquele ambiente, aliás são poucas pessoas frente ao número de pessoas na Cidade que eu vivo e, frente as demais pessoas que convivo, não seria suficiente para cercar com suas ideologias o meu “mundo” e, apesar de saber que elas existem e estão lá, ficam distantes quando saindo daquele local temos centenas de pessoas livres para conviver e debater e ensinar e aprender sobre todas as coisas.

Apesar desse “medo” ser algo distante frente a essa nova realidade e frente a distância de tempo que hoje já passados mais de aproximadamente 22 anos do ocorrido, esse “medo” no ano de 2019/2020 tem retornado, mais como uma volta da indagação de como pessoas podem viver em uma sociedade, seja ela pequena ou grande, sem serem permitidas de duvidar de algo, de perguntarem e se manifestarem entre seus pares, sem poderem ter um pensamento diverso sem serem excluídas?

E, hoje isso tem se tornado uma proporção muito maior, aquilo que era dentro de quatro paredes com no máximo 100 pessoas naquela seita que se reunia duas vezes por semana, passou a tomar de forma equiparada um corpo de milhões de pessoas, de professores, de juízes, de médicos, de estudiosos, escritores e outros chamados de intelectuais, que passaram como aquelas pessoas, não aceitarem opinião diversa, indagações sobre algo de nossa vida em sociedade não são mais bem-vindas a ponto de escreverem textos sobre a impossibilidade da dúvida sobre algo já imposto na sociedade, como a urna eletrônica por exemplo ou a exposição de um texto tido com o título “essa é a verdade do que ocorreu”, assumindo assim uma verdade única e plena de um fato que essa pessoa nem sequer presenciou ou viveu e, sim escolheu a seu Bel prazer aquela versão que melhor lhe agradou frente aos seus pré-conceitos e passou a impor como verdade absoluta!

Uma democracia que só pode existir quando as suas opiniões não são confrontadas, quando a sua atitude pública não é questionada ou quando suas ideias são tidas como a única verdade, uma democracia ilusória e mergulhada em suas crenças pessoais que agora devem ser impostas a todos, pois assim desejam.

O problema agora tem se tornado maior, não mais é possível simplesmente sair daquela seita e deixar de segui-los, pois, agora esses mesmos pensamentos e verdades absolutas estão sendo impostos por um número enorme de pessoas, que muitas vezes aplaudem a violência gratuita quando a favor de seus ideais e caçam aqueles que praticam “violência” contra seus pensamentos.

Uma sociedade que impõe lados para que você se posicione a fim de ser ou a favor ou contra, sem permitir diálogo e sem permitir a dúvida sobre algo é uma sociedade já fadada ao insucesso, é sim uma ditadura velada e silenciosa que busca calar e colocar de lado aqueles que querem discutir ideais, buscar mais conhecimento sobre algum fato e, trazer um confronto de pensamentos sadio e humano.

Se faz necessário não só se afastarmos, pois agora já não é mais possível, pois está ao seu derredor, mas se faz necessário ter uma postura clara frente a essa nova atualidade, se faz necessário sair da toca que antes lhe era confortável e começar novamente e incansavelmente fazer com que os diálogos voltem a serem prática do ambiente em que vivemos, não se calar a tamanha sonolência e, buscar manter a democracia aqui compreendida como direito a debates de ideias diversas e existência pacífica de pensamentos contrapostos como um pilar a ser mantido em nossa sociedade.

Parece que o meio termo, o bom senso, a lógica sobre um determinado assunto se perde para essa ou aquela versão de algum pensamento ou fato, passando a lhe obrigar a deixar de duvidar de tudo e posicionar sem direito a pensar ou aprofundar sobre o assunto, sob pena de ser taxado como alguém não digno de estar em seu convívio, seja ele presencial ou virtual, e nesse último ainda mais fácil de ser excluído quando com você não coaduna e, tão pouco lhe permite contradizer.

Um mundo onde o “desfazer amizade” está ao alcance de uma tecla, onde o feed “é meu” e se não concorda favor não comentar, tem se tornado comum não só para aqueles rigorosamente fechados ao diálogo mas também a um grupo historicamente aberto ao diálogo como juízes, escritores, operadora do direito, universitários, uma nova forma de “excluir” aquele que não pensa igual a você ou que lhe deixa sem argumentos frente ao seu pensamento se tornou algo comum, corriqueiro, banal, como naquela seita que na menor indagação você é levado ao ancião, no menor desejo de dialogar você é excluído e muitas vezes alvos de tentativa de humilhação pública.

Que possamos olhar para trás e manter alguns pontos que sempre deram certo na vida em sociedade, na democracia, na política da “boa vizinhança” no diálogo, no ato de pensar no próximo como se ele você fosse, buscar aprofundar sobre um assunto, estudar e somente após ter como verdade em sua vida.

Possamos dar a oportunidade de não termos razão sobre todas as coisas, e, termos a oportunidade de mudar de pensamento de aprender com o próximo e ensinar, de se surpreender e aprofundar, de ler toda a matéria e não só o título!

Gustavo Ferraz de Oliveira

Advogado